ASTECA


Os sindicatos e a fase atual da crise do capitalismo


José Augusto: Seminário de Gestão Sindical na Construção Civil de Candeias, Bahia

Nas últimas duas décadas a sociedade e, em especial, o mundo do trabalho, sofreram extraordinárias transformações. A terceira revolução industrial, a da informática, com uma abrangência nos sentidos horizontal e vertical nunca antes conhecida, mudou radicalmente desde o modo de produzir até o de divertir.

Se pensarmos que, a informática é utilizada até na organização dos prostíbulos e motéis, também na venda de loterias, e em atividades ainda menos nobres, dá para avaliar a extensão e a profundidade do avanço da informática nos dias de hoje.

E juntando toda essa abrangência dela, temos mais que, ela ao elevar de forma extraordinária a produtividade, sem dividir seus frutos com os trabalhadores, provocou um enorme incremento e concentração da renda e da riqueza.

A nova maneira de produzir implica numa geométrica extinção de milhões de postos de trabalho. Por outro lado, o abundante patrimônio financeiro acumulado conduziu os empresários da área à liderança do sistema capitalista, o que redundou na adoção sistemática de políticas recessivas no mundo todo, visando garantir os ganhos reais desse capital via redução da demanda (e da produção), consequentemente, da inflação. 

Partem, ideólogos e banqueiros, da ideia de que, a preservação do valor do dinheiro entesourado, e dos juros e dividendos por ele produzidos, podem ser feitos garantindo um consumo menor, de preferência restrito às camadas mais endinheiradas, com a consequente redução da produção industrial, de maneira infinita. O “detalhe secundário” nessa conversa toda é que se pretende aumentar a riqueza através do incremento do papel moeda em suas formas de certidões de depósitos, promissórias e outros artifícios da banca, ignorando que a riqueza é criada na produção industrial via “mais valia”.

O problema é que, desprezar Marx e escrever no Globo que a “mais valia” é uma ficção, não muda a realidade. Ou seja, quanto menor for a criação da riqueza via produção industrial, mais frequente e aguda serão as crises do capitalismo, como nos mostrou mui claramente a quebra da banca estadunidense em 2008 e anos seguintes.

A produção material passou a ser menos interessante que a cômoda – mas finita – especulação “permanente” com dinheiro virtual. A supremacia das ideias do “Consenso de Washington”.

Tal fenômeno levou à redução do peso do proletariado industrial na sociedade, e o predomínio do individualismo.

Estender no tempo esse artificialismo só é possível tentando liquidar com a ideia do coletivo. Daí a doutrina do estado mínimo; da possibilidade do cidadão resolver individualmente seus problemas apenas elevando sua escolaridade e trabalhando; a pregação do “fim da história“, do “fim da ideologia”, do “fim da luta de classes”, e até, de forma subliminar, da própria família, e outras idiotices do jaez. Idiotices, claro, quando professadas por integrantes daquela esmagadora maioria que só pode conquistar uma existência mais digna e justa pela ação coletiva.

Tudo isto, contribui para rebaixar a influência do movimento sindical, provocando a crise de arrecadação e, pior, de perspectivas, posto que, nesse clima do "cada um por si", fica muito difícil visualizar uma saída positiva - e coletiva - para o futuro.

Nessas condições, a gestão das entidades sindicais vai adquirindo um caráter cada vez mais politizado, posto que, para construir projetos consoantes com a nova realidade em que vivemos, e ganhar a correspondente confiança dos trabalhadores, será necessário demonstrar muito talento, tanto na ação política, quanto na gestão administrativa, o que exige modernização da estrutura sindical, e aperfeiçoamento continuado da organização e do planejamento.

Portanto, a superação da crise passa, antes de tudo, por um aprofundado e meticuloso estudo das suas causas reais, que favoreça caminhar para um novo sindicalismo. Para isso, torna-se imperioso dotar as entidades de um processo sistemático de formação, onde os seminários de gestão sindical para dirigentes, funcionários e militantes possam dar uma contribuição substancial. .

Por isso mesmo, a gestão e contabilidade sindicais não podem prescindir da eficiência e extrema transparência, entre outros, também pelos seguintes motivos: 

Primeiro, nos regimes democráticos como o que vivíamos até ontem no Brasil, a correlação de forças políticas dificulta pressões sobre o movimento sindical e popular pela via da repressão policial e terrorismo de estado, como acontecia nos tempos da ditadura civil-militar implantada em 1964. Todavia, as classes dominantes dominam a burocracia estatal e, dentro dela, a fiscalização. Podem – e costumam - tentar por esses meios, dificultar a vida das organizações sindicais, valendo-se da impossibilidade do conhecimento integral do cipoal de leis e regulamentos que a tecnoburocracia modifica a cada dia, aplicando-lhes, em consequência, multas e mais multas pelos erros cometidos.

Assim, cuidados com os documentos, contabilidade em dia, e boa assessoria na área, são indispensáveis.

Além disso, o empresariado, seus ideólogos, juristas, representantes no parlamento, e os senhores da Mídia concluíram que, no quadro de vigência das liberdades democráticas, melhor que reprimir é asfixiar as entidades pelo lado financeiro. Não é, pois mera coincidência a radical virada da Justiça Trabalhista que, de uma posição de reconhecimento da soberania das assembleias, na década de 1980, com o advento do neoliberalismo nos anos seguintes, passou a considerar que a decisão delas somente valeria para os associados, contrastando com o texto constitucional e a CLT, e optando pelo “direito a não-sindicalização”.

Nessas condições, o atual modelo de receita sindical tende a desaparecer, tornando-se a arrecadação, cada vez mais, diretamente dependente da confiança política dos trabalhadores nas entidades e suas direções o que será, sem sombra de dúvida, um grande avanço no setor. Assim, além da intensificação do trabalho de base, a transparência e um sistema de previsão orçamentária combinada com prestação de contas, que deixe de ser formal e envolva diretamente os associados, poderá contribuir para a solução do problema de arrecadação.

Tais circunstâncias acima descritas, entre outras, colocam na ordem do dia para o sindicalismo brasileiro, a palavra de ordem da formação sindical e política.

José Augusto Azeredo
 

 

Fonte :  Livro sobre gestão sindical :

            "O que todo sindicalista precisa saber"

            Autor: José Augusto Azeredo

Fonte: Blog do Zé Augusto

Comentários