ASTECA


Aos petistas com carinho



Meu amigo, irmão e camarada de lutas, Edvaldo Alves da Silva, um dos políticos mais inteligentes e capazes que conheço, publicou neste Blog no dia 11 passado matéria de sua autoria intitulada 6º CONGRESSO DO PARTIDO DOS TRABALHADORES -2016 - PT/VITÓRIA DA CONQUISTA, onde busca analisar a atual situação desse Partido.

Isto me animou em meter a colher suja, também, nesse assunto. Não com o intuito de corrigir, criticar ou aperfeiçoar o trabalho do camarada. Mas, como sempre tive intenções de opinar sobre o Partido dos Trabalhadores e nunca via oportunidade, dava preguiça e outros conformismos mais, fui empurrando com a barriga para o futuro. Claro que isto não é atitude de revolucionário. Atitude de proleta é esta do Valdo: sentar ao computador e escrever o que pensa o que é importante.

Todavia, enfim, chegou a ocasião de escrevinhar sobre o PT e lá vai.

O PT desempenhou um papel importantíssimo na política brasileira, desde sua fundação por um grupo heterogêneo, formado por militantes de oposição à Ditadura Militar, Sindicalistas, intelectuais, artistas e católicos ligados à Teologia da Libertação, no dia 10 de fevereiro de 1980, no Colégio Sion, em São Paulo.

Embora haja participado ativamente da criação da CUT - Central Única dos Trabalhadores, na época da fundação do PT estava empenhado em tentar reerguer o PCB, então derivado à direita, tarefa da qual desisti em 1983 por absoluta falta de condições políticas para o êxito dessa tarefa. Uma pena, mas os que pensávamos diferente fomos ali derrotados.

Hoje admito que foi um erro. Pois, poderia ter aproveitado melhor o tempo, ajudando na criação do Partido dos Trabalhadores e, quem, sabe, ajudando a contribuir para que ele seguisse uma linha de maior aprofundamento com a classe operária. Perdi o bonde da história e o passado não muda. Serve apenas como fonte de lições nos quais devemos nos basear, junto com o presente, para construir o futuro. Nada de chorar o leite derramado...

Felipe, diretor do Sindicato dos Químicos do ABC, lá por volta de 1986 esforçou-se para que eu me filiasse ao PT de Perus, mas a realidade da época não favoreceu os esforços desse meu falecido amigo.

Chega de história e vamos ao presente. Existe uma ampla discussão entre os petistas e derramando-se, também, pela esquerda política, sobre a atual situação do Partido dos Trabalhadores. Artigos e Profecias não faltam. Pululam críticas de todo tipo, desde que o PT morreu, que traiu os trabalhadores, que não tem mais jeito, de um lado, e do outro que, não ele tem jeito sim, agiu corretamente, não tinha outra saída, etc. e tal.

Enfim, os que acham que o partido errou tanto que não presta mais, tem que procurar outro, aos que pensam que ele acertou tudo, que aproveitou as condições políticas que apareceram que não tinha outro jeito...

O Zé Augusto, aqui, não acha nada disso.

Começando, o PT não morreu nem se encontra em situação imprestável. Ao contrário, apesar dos seus erros ele continua com profundos laços no proletariado, Em que pese seus erros, os governos dos quais participou, seja em nível municipal, estadual ou federal, funcionaram bem uns, outros mais ou menos, nas diferentes épocas em que pode estar à frente do Poder Político.

O PT errou? 

Oxe errou sim, e muito. Mas, qual outro partido faria melhor do que ele fez do ponto de vista de governar para o povão? Nenhum. Nenhum dos partidos de esquerda que vemos aí, os de direita já mostraram sua prática nefasta, por suas propostas, posicionamentos e ações fariam sequer igual. Até porque, nenhum deles tem o enraizamento na classe operária que o PT tem. Em sua maioria são partidos dirigidos por pessoas das camadas médias, em sua maioria contaminados pela ideologia pequeno burguesa. Haja vista que, muitos deles participaram, engrossando o coro dos fascistas, do "Fora Dilma". E ela, com todos os seus erros, e fraquezas foi e é muito melhor do que qualquer um de seus adversários.

O PT poderia ter feito mais?

Claro que poderia, e muito. E porque então não fez? Por uma coisa chamada "Ilusão Democrática" que acometeu seus dirigentes e militantes, não os deixando ver com clareza o presente e o futuro, E porque não dizer, pelo oportunismo de muita gente.

Por exemplo, todos sabíamos desde muito antes que, havendo uma greve geral e a Globo, dizendo que não, para o povão a greve não aconteceu. O que a mídia e a Globo fizeram nas eleições de 1989? Trabalharam firme, inclusive gerando factoides imundos para derrotar Lula. E, nas eleições seguintes, em qualquer dos níveis, trabalhou para derrotar os candidatos do Partido dos Trabalhadores. A mídia, Globo à frente, tornou-se um poder sem limites, capaz de distorcer a realidade, criar ou distorcer fatos a seu bel prazer, seja contra o PT, contra os petistas, contra os sindicatos, contra o movimento popular, enfim, contra tudo que interesse ao povão e ao Brasil.

Já começamos a "dar mole" na Constituinte de 1988 quando, o PT e as esquerdas, por ilusão de classe, não se esforçaram o suficiente para garantir na Carta Magna a regulamentação da Mídia. Os companheiros do PT e outros até achavam que se preocupar com a Constituinte era "coisa de burguês". Marcamos bobeira de montão ontem. E hoje estamos pagando muito caro, no lombo, o erro de deixar absolutamente aberto o uso da propriedade de imprensa, rádio e televisão. Deixamos com as mãos totalmente livres as 6 famílias burguesas que monopolizam a informação e a opinião no Brasil. Este foi um erro tão grande pra ninguém botar defeito. Ou não foi?

Na medida em que o PT começou a crescer, ocupando prefeituras e secretarias municipais, governos e secretarias de estado, Governo Federal e ministérios, cresceu junto o oportunismo nas fileiras petistas. Cada prefeito, cada vereador, cada governador, cada deputado estadual, cada secretário de estado, cada deputado federal, cada senador, criou um "petezinho" em sua repartição.

A posição desses companheiros ficou sendo a seguinte: em suas ações, o objetivo primordial era manter o mandato ou o posto a todo custo; depois, vinham os interesses de sua turma e de seu PT particular; por fim, a reboque disto tudo, vinham os interesses dos trabalhadores e do povão. Para que o esquema funcionasse a contento, para que o "seu PT" funcionasse exitosamente, era preciso cooptar militantes petistas na quantidade em que tivesse a capacidade de "profis$ionalizar".

Mas, para que esse esquema de transformar o PT num partido igual aos outros desse certo, era preciso desarticular a antiga organização do partido criada, lá atrás, com base nos Núcleos. Diga-se de passagem, copiada dos partidos comunistas de então.

Quais eram as vantagens do partido estar organizado em Núcleos? 

Funcionando, como os comunistas falavam de baixo para cima e de cima para baixo. O partido captava a partir de seus Núcleos, junto aos trabalhadores nas fábricas, nas propriedades rurais, nas escolas, nos bairros, nos quarteis, enfim, onde havia povo reunido, as notícias, as opiniões, as críticas, as propostas, enfim, tudo que o povo fizesse ou pensasse, certo ou errado, e as levava para as direções do partido, nos níveis municipal, estadual e federal.

De outro lado, trazia até as massas, independentemente da mídia burguesa, as notícias, as decisões, as opiniões e orientações do partido. Era esse funcionamento de mão dupla que dava vida ao PT e aos partidos comunistas quando estes funcionavam desse modo. Os militantes conheciam as orientações e opiniões da direção do partido, e esta conhecia as notícias e opiniões que circulavam entre a militância e entre trabalhadores e povão.

O chamado "centralismo democrático" então vigente, mesmo que sem a utilização desse termo, possibilitava um funcionamento de qualidade ao partido. Permitia que a militância, os membros do partido, pudesse influenciar o seu destino, participar da elaboração de sua política, e até escolher candidatos às eleições.

Um exemplo disto, desta salutar equação, tivemos aqui em São Paulo, nas eleições municipais de 1982. A Direção Nacional do PT escolheu Plínio de Arruda Sampaio para ser o candidato do PT à prefeito desta cidade. Mas a maioria dos membros dos Núcleos tinha opinião diferente. Eles preferiam Luiz Erundina.

O que aconteceu?

Os "amassa barro", os militantes da periferia escolheram Luiza Erundina em detrimento do Plínio. Elegeram-na dentro das fileiras do PT e elegeram-na entre os eleitores da cidade de São Paulo.

Para o Partido, para os trabalhadores, para o paulistano, foi uma vitória importante. Até porque, o desempenho da Prefeita Erundina, foi um dos melhores da história desta Capital.

Mas, esse esquema não permitia o funcionamento do "partido de diretórios e gabinetes" que interessava aos caciques e eleitos. Foi para o lixo, apesar das críticas daqueles que entendíamos, Lula inclusive, os Núcleos como fundamentais a um partido de trabalhadores, a um partido que queríamos e do qual precisávamos.

Em que pese às críticas que possamos fazer ao partido, seus dirigentes e seus prefeitos, governadores, parlamentares, secretários e ministros, vale destacar que as administrações e ações petistas foram úteis ao povo. Mesmo com defeitos. Mesmo podendo ser muito melhores do que foram.

Aonde mais o PT falhou.

No trato do trabalho de formação. Exemplo: as mulheres atendidas pelo Bolsa Família nos lugares mais pobres e desprovidos de tudo, queixavam-se de que, não havia uma orientação do governo para que elas se organizassem. Criassem entidades que lhes possibilitasse não só receber o dinheiro, não só fazer compras para a família, mas trabalhar para transformar política e socialmente suas regiões. Tanto lá no Piauí quanto nas periferias das grandes cidade, Governo e PT omitiram-se, enormemente no trabalho de formação. No meio sindical, então, nem se fale... A Formação ficou muito, muito abaixo das necessidades.

O que aconteceu com as pessoas que melhoraram de vida com os governos do PT, inclusive o Federal? Acharam que eles foram para a frente porque "Deus" os ajudou; porque ingressaram na Universidade e estudaram com afinco, etc, etc,

Como não foi feito com eles um trabalho de politização, nunca pensaram, e talvez ainda nem pensem, que tudo isso só aconteceu em suas vidas porque houve um Bolsa Família, um Pro Une, Governos, Ministros e Secretários que pensaram neles e trabalharam com políticas públicas para que eles pudessem também mudar.

Mas como ninguém se importou de dizer isso a eles, de ensinar-lhes a politica dos trabalhadores, ficou sendo "Deus" o qual não acredito que sequer exista, quanto mais fazer o bom para o povão.

Ignorando tudo isso, quando a corda apertou, nossos pequenos burgueses do PT começaram a correr atrás do pote de ouro no pé do Arco Iris. Os Molons, as Marinas, as Heloísas Helenas, por exemplo, boas pessoas, bons políticos, como bons pequenos burgueses saíram correndo do PT em busca de um pote de ouro no Arco Iris.

Como não existe essa história de pote de ouro no Arco Iris, também não é valido criar ou correr atrás de um partido melhor do que o que nele estamos hoje. Assim como, o emprego melhor estaria sempre à frente e, muitas vezes, isto não é verdade. Ou até mesmo, se o relacionamento conjugal não está bom, o pequeno burguês corre atrás de outra mulher que seria melhor...

Nada disso, companheiros. Não é mudando de partido, de emprego ou de mulher que estaríamos fazendo a coisa certa. A coisa certa é trabalharmos para melhorar o nosso partido. Trabalhar para que suas decisões sejam sempre mais acertadas, sempre politicamente mais corretas. Para que sua forma de organização seja adequada ao partido no qual estamos e desejamos melhorar. Para que o seu sistema de recrutamento de novos filiados não seja oportunista, não fique de olho nos Delcídios da vida e findem instalando o oportunismo em nossas fileiras. Entre mil Delcídios e semelhantes e 10 operários, fico com estes últimos, sem dúvida alguma.

Se o partido não está bom vamos melhorá-lo ao invés de construir outro. Vamos reconstruir o partido em novas bases, naquelas que achamos melhores. Nada de pressa ou desânimo pequeno burguês.

Quando do golpe de 1964 o PCB ficou bastante avariado. Um militante pequeno burguês encontrou-se, na rua, com um velho dirigente operário do Partido em nível nacional. O jovem perguntou ao velho: "E aí Souza, como vamos fazer, a casa caiu..." Ao que o companheiro dirigente respondeu: "Vamos reconstruir a casa com o barro que temos..." Uma lição política das mais importantes. Magistral!

Assim, companheiros, temos muito a fazer nesses tempos bicudos. Não existe lugar para desânimos nem para oportunismos. Esqueçam o pote de ouro no pé do Arco Iris. Caiam em campo. "Vamos reconstruir a casa com o barro que temos". Vamos reconstruir um PT de massas e fundado em Núcleos, Ha algum tempo Luiz Inácio falou em voltarmos para os Núcleos. Nessa mesma época ele avisou aos "aspones" que pedissem demissão, que saíssem das "bocas" e viessem para baixo reconstruir o partido. Até porque, se não se desligassem mais tarde levariam um "pé no traseiro". Não deu outra.

Quando falo em nós, referindo-me ao PT é por uma forma de expressão, de companheirismo de luta. Nunca pertenci ao PT como filiado, apenas na militância por entender que vale a pena trabalhar junto a um partido de trabalhadores. Só os ratos correm do barco quando a água está chegando. Vamos à luta. Pela construção de um novo PT baseado em Núcleos!

Quanto a mim, acho que nunca se é tão velho o bastante para enjeitar a luta política. Para recusar filiação ao PT.

José Augusto Azeredo

 

Fonte: Blog do Zé Augusto

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